NOVOS RITUAIS SOBRE A MORTE.

Caderno Especial Lutos e Perdas

O indivíduo questiona o que é liberdade, a ciência, os médicos, pesquisadores, uma Organização Mundial de Saúde, a tudo que contraria aquilo que ele não deixa tornar como realidade:

1) necessitamos nos afastar das pessoas e manter distanciamento;

2) a morte pode ser um processo rápido, silencioso e solitário. Não o bastante: estamos preparados para lidar com frustrações?

Estávamos bem resolvidos com nossas questões mais profundas de autoaceitação, de autorresponsabilidade e concordância daquilo que falamos e fazemos? São perguntas difíceis de responder.

Não só por sua complexidade, mas por carecer de parar para refletir e olharmos para nós mesmos.

É necessária uma conexão boa consigo mesmo, com nosso corpo, com nosso funcionamento.

Para assim podermos compreender claramente como escolhemos aquela situação como a possibilidade mais saudável de nos apresentarmos.

Aos que perdem entes queridos, o processo é ainda mais devastador.

Poucas horas para se despedir, com protocolos de enterros até 3 horas pós declaração de óbito.

A despedida fica cada vez mais difícil. Reduções de pessoas permitidas de acompanhar, quando podem.

O simbolismo tradicional de velório brasileiro se perdeu, ritos enfraquecidos.

Me questionei o que fazer diante disso. A resposta mais imediata foi alterar os ritos.

Memoriais podem ser uma saída.

Apresentar fotos, flores, e símbolos religiosos, e destinar um local fora da residência para deixar condolências e afeto me parece ser uma saída para os novos rituais diante a pandemia.

Não só como abertura a quem passar e poder se solidarizar, mas para que haja a possibilidade de simbolizar o término da vida de alguém.

O luto ainda é um processo complexo, e a meu ver sempre será, pois não estamos preparados para nos despedir de quem/daquilo que amamos.

Mas em sentido raso, amar é estar com alguém e poder demostrar afeto.

Quando nos aprofundamos mais nesse sentimento, percebemos que podemos amar as memórias, histórias, momentos e experiências que tivemos, e mesmo assim, deixar “ir”.

Talvez, estejamos longes de encarar a morte como uma realidade. Afinal, ela traz a sensação de terminalidade, incerteza de continuidade.

Afinal, a memória precisa de fechamento, enquanto vivos tentemos a tentar fechar tais processos com uma negação desta possibilidade.

Perdas são tirocínios no ciclo da vida. Precisamos nos observar e nos policiar diante delas, até gerarmos algum aprendizado significativo

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