ESPIRITUALIDADE NÃO É RELIGIÃO

Toda religião em sua essência é uma prática espiritual, mas a espiritualidade não é religião.

A palavra religião que aqui me refiro, significa em seu aspecto mais “recente” como uma organização de dogmas e preceitos.

Sendo assim, você já deve ter ouvido falar, imagina ou mesmo já entende sobre a diferença entre religião e espiritualidade.

A religião naturalmente, pelo seu objetivo, é uma prática de cunho espiritual, mas e a espiritualidade?

O que exatamente configura em ser espiritualizado?

O que é a espiritualidade na prática?

Universalmente, em todas as culturas e civilizações antigas encontraram-se, ao longo da história, indícios de práticas que remetem à espiritualidade, ao sagrado, ao divino, ao mistério.

Sejam tais práticas, através do sentimento natural de unidade com a vida, ou da simples e profunda conexão, conhecimento e comunicação com a natureza, seja com a personificação de forças que sobrepõem ao humano ou, ainda, seja através da autoconsciência cósmica adquirida em experiências meditativas.

A humanidade desde que se tem entendimento da própria espécie, parece sempre ter atravessado por perguntas existenciais como essas: De onde viemos? Qual a origem da vida?

A filosofia, mãe de todas as ciências, possivelmente teve essa pergunta como primeiro alimento ao nascer. A espiritualidade, assim como a filosofia em sua força metafísica, nos traz a conotação daquilo que não pode ser tangível ou mensurado. 

E aquilo que não pode ser visto e medido, foi gradativamente e largamente oprimido pela ciência reducionista e materialista ao longo do século XIX e XX.

Nos primórdios, poderíamos considerar a religião como a própria espiritualidade. Era a essencial conexão com a natureza em suas plurais manifestações, aonde a filosofia também não se separava.

Ao acentuar a investigação da natureza, a filosofia “se separa” da espiritualidade e faz nascer a ciência. A ciência, por sua vez, se consolida com a análise da matéria e assim, “se separa” da própria filosofia; ramificando-se em várias especialidades.

Paralelamente, o que chamamos de religiões atualmente, também se apoderaram do quesito espiritualidade humana.

As religiões no modelo de doutrina com base teológica, como conhecemos atualmente, possuem alguns poucos milhares de anos. Segundo o psicólogo evolucionário Robin Dunbar, elas são características de comunidades pós-agricultoras, diferente da maior parte das religiões da história humana com mais de quinhentos mil anos: que tinham formato de estilo xamânico, sem deuses e sem códigos morais, e eram característicos de comunidades de caçadores e coletores.

A palavra religião advém do latim religare que significa religar. Unificar. Religar-se com a totalidade, religar-se com a Fonte de Vida ou o Criador, no caso de religiões monoteístas.

Na filosofia milenar hindu, o religare corresponde ao samadhy (palavra sânscrita que significa basicamente estado de iluminação, ou seja, unificação com a verdade, a totalidade).

No budismo, esse estado de suprema plenitude é chamado de nirvana: o auge de êxtase na diluição da nossa individualidade na unidade, no grande vazio, no grande mistério. Cristo e Buda representam estado de consciência de plena unidade com a Consciência Suprema.

Na China, ainda que não se tenha uma personificação de um criador, o taoísmo revela o que podemos chamar de Deus. Todas essas filosofias orientais ou doutrinas e religiões, convergem, em seu íntimo, no principal objetivo: a unidade.

Entretanto, ao longo da história das sociedades, especialmente no ocidente, vimos o quanto esse objetivo fora distorcido.

A opressão, sectarismo, preconceito, guerras, milhares de pessoas torturadas e mortas em nome do que chamavam de Deus, marcaram longos séculos; mais explicitamente na era medieval, quando a religião se misturava ao poder de Estado e evidencia a distorção do pecado original.

Ainda hoje vê-se heranças dessas marcas. Essas ações definitivamente deixaram a palavra religião automaticamente distante do seu maior significado e semântica: religare.

Mesmo com as distorções devastadoras, sabemos que na essência das religiões e muitas de suas reais práticas, habita a proposta de viver as virtudes atemporais e absolutas do nosso Ser.

As religiões agregam, confraternizam. E isso é espiritualidade.

A espiritualidade em sua etimologia significa sopro. O sopro que movimenta, anima, dá vida. A espiritualidade é a consciência da vida como unidade de interligação com o todo maior.

É a própria integração do religare. Uma consciência que instintivamente era e é experienciada pela integração natural com a vida manifesta em tudo: a terra, água, as montanhas, as estrelas, a natureza.

Com ou sem religião, a espiritualidade é a consciência do amor, da fraternidade, da benevolência, da igualdade: valores atemporais, que fazem parte do espirito. É a ética natural do Ser.

Virtudes agraciadas pela filosofia, esquecidas pela ciência reducionista e linear e, mais que nunca, resgatadas pela atual e ainda crescente ciência unificada. 

A espiritualidade pode ser praticada sem religião. Mas religião sem a espiritualidade é antiética, falsa e imoral. Religião e espiritualidade em sua real essência são um só. A sua verdadeira prática é sempre pelo amor. Jamais pelo medo ou por barganha.

A ação das virtudes em si, já é o próprio fim. O fraternizar, partilhar, ser justo e benevolente com a vida em tudo e todos, já é o próprio céu aqui e agora.

Práticas religiosas ou não, que incitam o preconceito, o sectarismo, o medo, a culpa e que oprimem o corpo, de certo modo não são espirituais.

Estão perdidas e apartadas do espirito; engolidas pelas distorções em várias escalas e do mau uso da fé para detenção de poder e riqueza.

Práticas espirituais com ou sem religião, são práticas que incitam o bem-estar comum, a compaixão, o autoconhecimento, o amor, a alegria, a sabedoria, a saúde integral, a paz, a autonomia, a benevolência, a igualdade, a fraternidade (não apenas com seu grupo, mas com o universo inteiro).

Ser espiritualizado é honrar o corpo, a alma, a natureza, a alegria, o prazer, a Terra, a matéria, o universo e a vida como sagrados e profundamente interligados.

É tornar as ações e a própria existência, congruentes com os valores perenes do Ser. Virtude eternas, porque atravessam o intervalo entre nascimento e morte, pois são a própria vida.

Com ou sem religião, que seja sempre rumo e em prol ao religare. Somos Vida. Somos Um.

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